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09/08/2021

Tênis altos e efeito gangorra – serve para todo corredor?

Acessórios, Lesão, Teste

Por Ana Luíza Rodrigues.

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                Tudo começou com a quebra do recorde do Kipchoge utilizando o protótipo do hoje comercialmente disponível, Nike Vaporfly 4%. Desde a introdução da linha Nike 4% e Vaporfly, a indústria de calçados de corrida tem sido muito debatida. Hoje é parte da minha rotina na clínica e dos treinadores entender a mecânica deste tipo de produto. Mas afinal, será que este tipo de tênis é adequado para todos os corredores?

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                Quando a Nike comparou seu custo energético (economia de corrida) com os calçados de corrida de elite contemporâneos, o Vaporfly proporcionou uma melhoria de 4% na economia (daí o nome do calçado) e um aumento estimado de 3,4% na velocidade de corrida (HOOGKAMER, 2018). Como o primeiro estudo foi encomendado pela Nike em parceria com a Universidade do Colorado, outro grupo sem conflitos de interesse resolveu replicar o estudo. Os resultados foram similares em direção, mas com diferentes magnitudes. O Vaporfly reduziu a economia de corrida em 2.8% e 1.9% comparados ao BOOST e Zoom Streak, respectivamente (HUNTER, 2019).  Ou seja, o tênis realmente produziu uma melhoria na economia de energia comparada aos outros tênis – mas essa melhora não chegou a 3%.

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               E aí vieram os questionamentos. Por que existe esta diferença? A que poderia ser atribuído? Quanto de benefício viria da espuma, da placa de carbono ou da altura elevada do drop? Um editorial publicado no conceituado British Journal of Sports Medicine concluiu que cada um destes componentes possui recursos de design que reduzem a perda de energia isoladamente e, talvez mais ainda, quando combinados (BURNS, 2020). A polêmica foi tanta que o tênis foi considerado uma espécie de “dopping mecânico”. A Associação Internacional das Federações de Atletismo (IAAF) estipula que os calçados “não devem ser construídos de forma a dar aos atletas qualquer assistência ou vantagem injusta”. Embora o Vaporfly dê uma vantagem aos corredores, ele não viola as regras atuais da IAAF. No entanto, muitos na comunidade de corrida debatem se este calçado confunde a linha entre o desempenho fisiológico e tecnológico, e muitos pediram regulamentações mais explícitas.

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                O conceito do efeito gangorra está presente nos novos designs de calçados de corrida e estão cada vez mais comuns. Para entender, observe a próxima figura: durante a fase de apoio da pisada o ponto de aplicação da força é deslocado para frente, fazendo com que a placa, com toda a sua rigidez, promova o efeito de projetar o calcanhar para cima (NIGG, 2021). Isso teoricamente promove uma diminuição do gasto de energia, pois este “empurrão” no calcanhar faz com que haja uma energia extra para a impulsão.

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Ilustração esquemática do efeito gangorra: A aplicação da força do corredor (seta preta) na parte da frente do tênis e a força de reação no calcanhar (seta vermelha) durante o apoio médio (1) e na propulsão (2). O deslocamento do ponto de aplicação de força, da região dos metatarsos (abaixo dos dedos dos pés) para os dedos (círculo vazio, para círculo cheio) demonstra o efeito gangorra, onde a placa projeta o calcanhar para cima (Fonte: NIGG, 2021 – modificado).

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               Apesar das vantagens mecânicas, será que este tênis serve para todos os corredores? Existe uma relação que não nos contam ao comprar este tipo calçado. Quanto mais alto o tênis, mais instável o pé fica. Imagine uma torre de lego/blocos – quanto mais alta a torre, maior a tendência da torre cair, correto? Por essa razão é necessária uma base mais larga para que a torre seja estável. Com o tênis funciona da mesma forma. Há tênis altos e largos que são estáveis e existem tênis altos e estreitos que são instáveis. Vários tênis da moda, com drop elevados são instáveis – os tênis da Nike com placa de carbono e o Megablast da Asics são assim – não estou apontando uma marca de tênis específica, e sim demonstrando que é uma tendência de mercado.

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                Para alguns corredores com alteração de pisada este tipo de tênis pode piorar o padrão mecânico. O pé mais pronado pode ficar mais instável dentro do tênis e isto, associado a outros fatores, PODE gerar dores e lesões. Tenho recebido na FIBRA alguns corredores com queixas e o uso destes tênis em comum. É um problema? Ainda não sabemos. Não existem estudos que investigaram o papel que estes novos tênis possuem no risco de lesão em corredores.

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               Se você corredor utiliza este tipo de calçado e está sentido dor no tornozelo, sentindo o pé instável ou “virando” muito, investigue. Se não, tudo certo. Continue utilizando.

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                Podemos considerar outros fatores. Alternar modelos de tênis entre treinos de tiro ou longos pode ser uma boa estratégia, já que é comprovado que realizar o rodízio de tênis diminui o risco de lesões (MALISOUX, 2015). Além disso, a principal variável que deve ser considerada na escolha de um tênis é o conforto (NIGG, 2015).                 Tênis é uma escolha pessoal e possui menos relevância do que a gente acredita. É mais vantajoso preparar o corpo para a prática esportiva. Força muscular, mobilidade das articulações, planilhas de treinamento, alimentação adequada e a interação de todos esses fatores são chave para o aumento do desempenho e prevenção de lesões. O tênis é um detalhe, é a cereja do bolo.

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REFERÊNCIAS

  • HOOGKAMER, Wouter et al. A comparison of the energetic cost of running in marathon racing shoes. Sports Medicine, v. 48, n. 4, p. 1009-1019, 2018.
  • HUNTER, Iain et al. Running economy, mechanics, and marathon racing shoes. Journal of sports sciences, v. 37, n. 20, p. 2367-2373, 2019.
  • BURNS, Geoffrey T.; TAM, Nicholas. Is it the shoes? A simple proposal for regulating footwear in road running. British Journal of Sports Medicine, 2020.
  • NIGG, Benno M.; CIGOJA, Sasa; NIGG, Sandro R. Teeter-totter effect: a new mechanism to understand shoe-related improvements in long-distance running. British Journal of Sports Medicine, 2021.
  • MALISOUX, Laurent et al. Can parallel use of different running shoes decrease running?related injury risk?. Scandinavian journal of medicine & science in sports, v. 25, n. 1, p. 110-115, 2015.
  • NIGG, Benno M. et al. Running shoes and running injuries: mythbusting and a proposal for two new paradigms:‘preferred movement path’and ‘comfort filter’. British Journal of Sports Medicine, v. 49, n. 20, p. 1290-1294, 2015.
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Elise
Elise
1 mês atrás

Excelente!

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